Seria possível dizer, simplesmente, que o placa preta desta edição pertence a um engenheiro eletricista que, por acaso, é também um aficionado por Fuscas. No entanto, essa definição não seria justa para descrever o dono deste ícone do mundo automotivo. Assim, é melhor dizer que Alexander Gromow é um aficionado por Fuscas que, por acaso, é também engenheiro eletricista. Especialista no assunto, Gromow tem duas obras publicadas sobre esse carro que já ocupou a posição de mais vendido do mundo. É também membro e ex-presidente do Fusca Clube do Brasil. Fora isso, também é responsável pelo Dia Municipal, Nacional e Internacional do Fusca. O último, celebrado no dia 22 de junho, é comemorado em diversos países, o que faz de Gromow uma figura reconhecida internacionalmente. “O intuito de todas essas datas é fazer com que, pelo menos por um dia, a pessoa lembre que tem um Fusca e tenha um pouco de motivação para preservá-lo”, conta Alexander.

Para entender toda essa preocupação com a preservação do modelo é preciso voltar para 1970, ano em que o ainda jovem Alexander era dono de um Chevrolet FleetMaster 1947. O veículo, carinhosamente apelidado de “Titio”, carregava o estudante para todos os cantos da cidade. Até que, no último ano da faculdade, o motor do FleetMaster fundiu e Alexander se viu sem dinheiro e a pé. “Na época, pra ganhar uma grana extra, eu dava aula particular de tudo que era matéria. Foi o pai de um dos meus alunos que tinha esse Fusca. Ele era cineasta e comprou esse modelo porque precisava de um carro com teto solar pra colocar a câmera e filmar dirigindo pelas ruas. Naquele tempo só era permitido importar carros usados, então ele comprou na Alemanha, no nome de uma amiga, e fez uma maracutaia para trazer até o Brasil. O rolo foi tamanho que demoraram quinze anos até sair a quarta via da importação, que é quando o carro fica realmente legalizado. Aí eu, meu pai e minha irmã fizemos uma vaquinha e conseguimos comprar o Fusca”.

“Na verdade, ele é um parente de quatro rodas que dorme na garagem”

Por muito tempo Alexander usou o carro diariamente, até que, tempos depois, comprou um Opala que se tornaria seu veículo para uso no dia a dia. No entanto, diferentemente do Fusca, o Opala seria vendido anos mais tarde. “Você vai perceber que, na maioria dos casos, quando a pessoa pode não se desfazer do Fusca, ela não se desfaz. Isso acontece porque, eu até fico meio arrepiado, a ligação que esse carro tem com as pessoas é muito difícil de se explicar. Muita gente fica brava quando você chama o Fusca de objeto. Na verdade, ele é um parente de quatro rodas que dorme na garagem”, diz.

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Ainda assim, demorou para Alexander ter o cuidado que o Käfer, nome do carro na Alemanha, merece. “Eu sempre quis ter o carro nas melhores condições possíveis. Mas, por muito tempo, eu não sabia o que realmente eram melhores condições possíveis. Cuidar de um carro dessa idade requer um conhecimento que muitas vezes não temos. Depois de uma primeira reforma que não me agradou, fiquei quinze anos reunindo peças. Aí um grande amigo meu abriu as portas da Volkswagen e meu Fusca foi reformado manualmente na Ala Zero da montadora, entre os anos de 1989 e 1992”.

Ano 55, modelo 56 Cabrio Limousine, motor 1200, primeira marcha não sincronizada, cor Coral Red. Imortal, o Fusca de Alexander, que fez parte de um grupo fabricado especialmente para exportação, não tem futuro definido. “Enquanto eu estiver aqui vou cuidar. Depois, não tenho nada preparado para ele. Não tenho filhos, nem para quem deixar. Eu só espero que ele caia em boas mão”, conclui.

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