A cada ano, movimentos pela igualdade entre sexos ganham mais força. Mas será que a mulher de fato tem conquistado o seu espaço? Mesmo que o homem a enalteça em discursos românticos, ainda existem muitas batalhas a serem enfrentadas por sua igualdade. Principalmente quando falamos do setor automotivo.

A ideia de limitar a figura feminina a determinados papéis na sociedade não é nada original. Basta olhar para trás e ver como ela foi desenhada ao longo dos anos. A criatura dependente de proteção, a imagem subalterna, o ser associado à reprodução, o sexo frágil. Com isso em mente, é fácil compreender porque comentários como “tinha que ser mulher”, “ela não tem força pra isso” e “o seu lugar é na cozinha” estão tão presentes no dia-a-dia.

Ainda que o mercado de trabalho seja um campo de batalha para as profissionais do gênero feminino, quando partimos para o setor automotivo é nítido que todo esse cenário se torna mais agravante. Especializado em educação corporativa, Luiz Gabriel Tiago, diretor da empresa de consultoria SGEC Brasil, explica a situação: “Ao longo dos séculos, elas foram coibidas de exercer determinadas profissões e ‘educadas’ a serem prendadas, boas donas de casa e mães zelosas. Não puderam mostrar seu talento e escolher profissões que, até hoje, são tipicamente masculinas”.

“Sempre gostei muitos de carros, mas entendia bem pouco sobre eles”

Mesmo com o avanço da comunicação, e com constantes debates sobre o assunto, muitos insistem em acreditar que o lugar de uma mulher é longe da direção. A primeira vez que Thais Roland percebeu essa ideia foi no ano de 2008, durante uma visita ao Salão do Automóvel que acontecia em São Paulo. “Passei o dia lá e me diverti horrores. Sempre gostei muitos de carros, mas entendia bem pouco sobre eles. Meu incômodo surgiu quando percebi que todas as vezes que ia a algum estande perguntar sobre, ninguém me dava atenção”.

A cada quilômetro viajado de volta para casa, a vontade de se envolver mais com esse mundo crescia. Quando se lembrou da influência de blogs na internet decidiu criar um, o “Coisa de Meninos Nada”. “O nome me veio à mente quase imediatamente. Foi mais por uma revolta interna causada pela falta de atenção no evento. Nunca teve nenhuma intenção política”, explica.

Com o crescimento da página, Thais começou a estudar mais sobre mecânica automotiva. Matriculou-se em um curso técnico em 2011 e, a partir daí, assumiu o compromisso de contribuir para a educação de um público que não acreditava na possibilidade de entender o tema. Mesmo com um conteúdo segmentado ao público feminino, ela percebeu o alcance da página para ambos os gêneros. Com as mulheres, ela assume o desafio de convencê-las de que mecânica é importante e divertido. Com os homens, tenta mostrar que, de fato, sabe do que está falando, e que juntos podem aprender mais.

“Tem homens que entram em contato comigo para parabenizar e incentivar meu trabalho, assim como existem mulheres que comentam nas minhas redes para desafiar meu conhecimento. Nenhum caso é regra. E é por este motivo que trato todos igualmente, independente do gênero”.

“Já que muitos me falaram que mulher não leva carro em oficina decidi criar uma para que ela pudesse levar”

A necessidade de se adaptar as reações de um público conservador também se tornou um desafio para Agda Óliver, de 37 anos. O motivo: decidir investir em um mercado majoritariamente masculino. “Fiquei indignada depois que fui enganada por um mecânico. Não acreditei quando vi que tinha pago por um serviço que sequer foi prestado”, conta.

Depois dessa experiência, ela decidiu, quase que imediatamente, estudar. E foi entre análises e pesquisas que descobriu que este poderia ser um bom nicho no mercado. “Por que não investir em uma oficina dedicada ao público feminino? Já que muitos me falaram que mulher não leva carro em oficina decidi criar uma para que ela pudesse levar.” Quem antes achava que “carro era só colocar gasolina e pronto”, hoje comanda a 1ª oficina mecânica para mulheres do Brasil.

O trabalho possui reconhecimento por quem passa. Frases como “nossa, amei a ideia”, “a oficina é limpa e cheirosa” e “essa empresa é franquia?” são frequentemente escutadas. Mas, para a empresária, ainda existem muitos outros desafios. “Minha maior ambição é ter mão de obra 100% feminina. Mas, infelizmente, não encontro mulheres com formação e experiência na área”.

Agda divide as ferramentas com Sheila. Profissional que ainda cumpre o papel de única mecânica na oficina. Com a dificuldade em encontrar parceiras para a iniciativa, a própria dona decidiu arregaçar as mangas e ensinar tudo o que podia para a funcionária, que já trabalha com ela há quatro anos.

Para os que acreditam que a graxa do dia a dia inibiu a sua feminilidade, ela mesma diz: “toda mulher pode, e deve, ser o que quiser! Sou palestrante e levo isso como motivação. Quem disse que eu não posso ser uma mecânica, empresária e empreendedora de sucesso?” No caso de Thais, hoje com um canal consolidado no YouTube, a comunicadora faz questão de interagir com todos, desconstruindo e evoluindo ideias a respeito do papel da mulher no setor automotivo.

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