Ao atravessar a porta de vidro do Automóvel Clube do Brasil é impossível não notar a Lambretta LD de 1958, vermelha e branca, tão bem cuidada que parecia que tinha acabado de sair da fábrica.

Fomos recebidos por um homem de 1,70m, com uma barba grande e levemente grisalha. Seu nome é Eduardo Santos, de 53 anos, um clássico apaixonado por carros e o dono da Lambretta escarlate.

Eduardo é um desses sortudos que conseguiu transformar a paixão em trabalho. Além de colecionador, ele é um dos vistoriadores responsáveis por ceder certificados de placa preta no Automóvel Clube do Brasil. “Não posso dizer que de segunda a sexta eu trabalho, pois de sábado e domingo eu continuo fazendo o que eu gosto” afirma.

A história do Automóvel Clube do Brasil se mistura com a história dos automóveis no Brasil. Fundada pelo Alberto Santos-Dumont em 1907, no Rio de Janeiro, a entidade foi o primeiro clube automobilístico brasileiro. Ela criou a primeira autoescola, primeira oficina mecânica e o primeiro posto de gasolina.

imagem da lambretta

Uma paixão de infância

A paixão pela Lambretta é antiga. Seu pai tinha um modelo igual o dele, porém das cores azul e branca. “Quando eu tinha seis anos, ele falou que tinha mandado pintar a Lambretta, só que ela nunca voltava da pintura”. A verdade é que a moto tinha sido vendida.

Aos 14 anos, ganhou uma moto de seu pai, mas ainda faltava a paixão da infância. 
Em 2016, Eduardo reencontrou um casal que era dono de uma Lambretta e o negócio foi fechado. “Eu não ia deixar passar”, explica.

A Lambretta

detalhe do velocímetro da lambretta

A Lambretta do Eduardo é do modelo LD de luxo do ano de 1958. Com um motor de dois tempos de 150 cilindradas, a motoneta chega até a 60km/h. Originalmente ela foi lançada na Itália, em 1947, com dois modelos, o standard, que era o básico, e o LD, que era o de luxo. Esses modelos foram fabricados até 1960.

“Ela é a percussora das scooters no Brasil. Em 46, na Itália, tudo começou com a Vespa e no ano seguinte, a Innocenti lançou a Lambretta”, diz.

Ferdinando Innocenti, filho de ferreiro, usou a longa experiência com tubos de aço para criar a fábrica de motonetas em 1947 no bairro de Lambrate, em Milão. Com a ajuda do engenheiro Pierluigi Torre, foi criado um veículo de baixo custo que ajudou a reconstruir a Itália pós-segunda guerra mundial.

O sucesso da moto não se dá apenas por sua popularização entre os italianos. O explorador Dr. Cesare Battaglini levou a imagem da Lambretta ao redor do globo. Em uma viagem que durou 3 anos (de 1956 a 1959), o explorador percorreu todos os continentes do mundo com sua Lambretta 150D.

Na década de 70, a Lambretta fez um enorme sucesso entre os jovens europeus. Entre os ingleses, as motos estilo scooter foram sensação com os jovens rebeldes, conhecidos como Mods. Ela virou referência na cultura pop e um sonho entre os amantes de motos.

Um sonho realizado

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A fábrica da Lambretta, na Itália ainda fabrica as peças originais, por isso não foi tão difícil a restauração. Com a ajuda de amigos, ele conseguiu trazer o velocímetro e as manoplas para completar o trabalho.

Com o veículo restaurado e com a placa preta instalada, Eduardo desfila com a motoneta pelos bairros de São Paulo, exalando o cheiro característico da mistura entre óleo e gasolina.

Ao arrancar com a moto, o som de seu motor pode ser ouvido a certa distância e a fumaça que sai de seu escapamento deixa um rastro por onde passa. Ao parar em uma esquina, a Lambretta de Eduardo arranca suspiros não apenas de amantes de motos, mas de todos que estão na rua.

A Lambretta do Eduardo é uma versão de luxo, com bancos e tapetes de couro vermelho. Montada no Brasil, a Lambretta virou sinônimo entre as motonetas. Uma dos poucas que possui estepe, que funciona tanto para traseira quanto para dianteira.

Assim, a Lambretta escarlate de Eduardo é parte de uma história que atravessa seis décadas e continua viva. 

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