Ela ensinou uma rainha a dirigir. Escreveu um livro passando seus ensinamentos de pilota para outras mulheres curiosas – e, nesse mesmo livro, vislumbrou o uso de um objeto hoje corriqueiro em carros e motocicletas: o retrovisor. Achava que galopar em uma pista longa de obstáculos e saltos era mamão com açúcar perto de dirigir um carro em alta velocidade. Foi uma das primeiras mulheres a se tornarem pilotas no mundo, e a primeira na Inglaterra. Aprendeu a dirigir muito rápido e sabia muito sobre mecânica, tendo feito 6 meses de aulas em Paris.

Pisava o pé direito no acelerador até o fundo, enquanto mais de mil mulheres lutavam por seus direitos ao voto na Inglaterra e eram presas atrás de grades. Impulsionou-as, sendo reconhecida hoje por estar ao lado do movimento feminista que se desenhava e consolidava em sua terra natal: o Reino Unido.

Dorothy Levitt foi (e é) um símbolo forte para mulheres do mundo inteiro no universo automobilístico – este bastante masculino e razoavelmente hostil a figuras como ela. (Basta se lembrar, e não é tão difícil assim, da última piada que você ouviu sobre mulheres ao volante, provavelmente há não tanto tempo atrás, e fica mais claro o quanto trilhar esse caminho pode ser delicado.) A pilota, no entanto, conquistou seus marcos com agilidade.

Sua primeira corrida de carro tomou corpo em 1903, a chamada Southport Speed Trials. Sua aparição chocou o país. Pilotava um Gladiator, de motor 12 cavalos, da marca Napier & Son, e era a primeira mulher da Inglaterra a participar de uma corrida. Nessa prova não ganhou nenhum prêmio. Mas, no mesmo ano, recebeu um British International Harmsworth Trophy pilotando um barco motorizado.

Ela, definitivamente, estava à frente de seu tempo (e correndo, a muitos quilômetros por hora).

Uma campeã e pilota eclética

Em suas primeiras batalhas, Dorothy se encontrava lutando na linha de frente, erguida em seu cavalo. Ela sempre dizia que o primeiro contato que teve com o mundo das corridas se deu pela prática antiga de cavalgar – prática essa que não voltou a aparecer em suas biografias mais tarde. A pilota se encantou, afinal, pelo desafio que descobriu nos veículos motorizados, e a paixão não teve mais volta.

Sua vivência com esses foi, realmente, tão densa quando diversa. Aprendeu a dirigir carros em primeiro lugar, mas os barcos a motor, os iates e até os aviões vieram pouco tempo depois. Seu primeiro prêmio, como dito antes, foi conquistado em uma competição de barcos e não de carros.

Eclética, Dorothy mergulhou nessas várias modalidades por anos, e acabou conquistando vários troféus e recordes ao longo do tempo.

As medalhas

Em 1905, ela estabeleceu seu primeiro recorde de velocidade mundial feminina ao competir na primeira edição da famosa Brighton Speed Trials, conhecida como a competição de corrida mais antiga do mundo. Ali, ela dirigiu um carro de 80 cavalos Napier, chegado à velocidade de 79,75 milhas por hora (o equivalente a

128 quilômetros por hora). Ganhou o prêmio Brighton Sweepstakes e o Autocar Challenge Trophy. Em seus diários guardados, há uma passagem em que fala sobre esse momento: “Venci muitos pilotos profissionais… E dirigi a uma velocidade de 77,75 milhas na Daily Mail Cup”.

Dois anos depois, em 1907, ganhou uma medalha de ouro na Herkomer Trophy Race, na Alemanha, terminando em quarto lugar entre 172 competidores. Dirigiu, segundo seus próprios escritos, um carro de motor 60 cavalos e 6 cilindros, também da Napier. “Tinham 42 carros com motores muito maiores do que o meu”, anotou.

No mesmo ano, foi barrada em um circuito famoso chamado Brooklands, que não permitia que mulheres pilotas dirigissem nas pistas. Dorothy passou a pressioná-lo para que mudasse suas regras e, em 1908, conquistou mais uma vitória: o circuito passou a admiti-la. Em junho do mesmo ano, dirigiu um Napier de 45 cavalos e ganhou uma placa de prata.

Suas muitas vitórias somadas a fizeram famosa na França e na Alemanha. Foi parar em jornais, sendo conhecida e apelidada como The Fastest Girl on Earth e The Champion Lady Motorist of the World (“A Garota Mais Rápida da Terra” e “A Campeã Pilota do Mundo”). Em um jornal de 1906, depois de conquistar um de seus recordes mundiais, ela escreveu um artigo chamado “As Sensacionais Aventuras da Senhorita Dorothy Levitt – Campeã Pilota do Mundo”. Entre suas falas, conta sobre suas corridas e também sobre como o mundo em que se insere pode ser arriscado:

“Maravilhoso. É difícil que alguém consiga descrever essa sensação. Um sentimento está voando pelo espaço. Eu nunca penso no perigo. Esse tipo de coisa não cabe. Mas eu sei que ele está onipresente. O menor toque da mão e o carro desvia uma curva – e desvios geralmente são fatais. Mas eu sou uma boa jogadora e estou sempre disposta a arriscar”.

Seu passado tinha outro nome

O nome estampado em revistas – e o que corria pelas bocas da Europa – era Dorothy Levitt, mas, na verdade, esse era quase um pseudônimo artístico. Aquele registrado em cartório por seus pais, Jacob Levi e Julia Raphael, foi Elizabeth Levi.

Ela nasceu em um distrito de Londres chamado Hackney, no dia 5 de janeiro de 1882. Seu pai era um comerciante: vendia chá e também joias. Por causa do último mercado, acabou enriquecendo, o que deu à Dorothy uma vida confortável. Sua mãe, Julia, nasceu em 1856 e casou com Jacob em 77. Curiosamente, ambos morreram depois de Dorothy: viveram até 1934 e 1942, enquanto a filha foi encontrada morta em 1922, intoxicada com morfina enquanto sofria de problemas no coração e ataques de sarampo. Tinha apenas 40 anos.

Seu encontro com as corridas lhe apareceu inesperadamente. Em 1902, ela havia sido contratada como secretária em uma companhia de engenharia britânica chamada Napier & Son, famosa por desenhar carros de luxo e também de corrida. Tinha grande prestígio, uma vez que a indústria automobilística britânica ainda estava em uma fase embrionária, desenvolvendo-se a cada instante.

O emprego de Dorothy, inicialmente, seria temporário. Ela nunca imaginou que permaneceria ali por tantos anos, nem que seria alçada à pilota em um período tão curto. Mas uma pessoa, que também trabalhava para a empresa, mudou seu destino rapidamente: ele se chamava Selwyn Edge, era um homem de negócios britânico e participava de várias corridas de carro e de ciclismo, sendo reconhecido como um piloto recordista.

Nunca se soube exatamente qual era a relação entre os dois, nem por qual motivo Edge teria visto em Levitt uma possível corredora. O que muitos dizem é que o piloto, que também trabalhava para a Napier, queria transformar a secretária em uma nova Camille du Gast – pilota francesa que fez muita fama na época –, para então promover a empresa e torná-la conhecida.

Se esse foi mesmo o seu objetivo, conseguiu cumpri-lo com maestria. Depois de pouco tempo, no qual Dorothy aprendeu a dirigir e fez aulas de mecânica em Paris, os carros da companhia já corriam em alta velocidade pelos comandos de Levitt, chamando a atenção do país inteiro por serem pilotados por uma mulher.

Sua ascensão foi meteórica, ganhou vários dos prêmios já citados, e se tornou também escritora. Além de algumas colunas para jornais, como a do Yorkshire Evening Post, em 1912, intitulada “Automobilismo para mulheres: algumas dicas para amadoras”, ela também escreveu um livro publicado em 1909, chamado “A Mulher e o Carro: Um Pequeno Manual Tagarela para Mulheres Pilotas ou que Querem Pilotar”.

O livro ficou famoso, mais tarde, por vislumbrar uma ideia simples e engenhosa: o retrovisor. Entre os escritos, que davam várias dicas práticas de automobilismo a mulheres, havia uma sugestão interessante: “Carregue um pequeno espelho de mão em um lugar conveniente enquanto dirige. Segure-o no alto, de tempos em tempos, para enxergar o que está atrás do carro”. Os retrovisores só começaram a ser fabricados 5 anos depois, em 1914.

A carreira de Dorothy esteve entre publicações durante um bom tempo, mas, depois de 1910, seus compromissos públicos desapareceram de forma abrupta. Sua vida após esse período não foi documentada.

Ela não estava sozinha

O pioneirismo de Dorothy dentro do universo automobilístico foi notável. Ela não só foi a primeira inglesa a participar de corridas importantes, ganhando muitos troféus, como seus artigos, livros e palestras defendiam sempre que outras mulheres também se juntassem a ela. Mas é importante lembrar que a pilota estava inserida em um contexto bastante específico: o movimento feminista das sufragistas tomava conta da Inglaterra, dos Estados Unidos e da França, em um momento em que a Primeira Revolução Industrial havia gerado mudanças fundamentais em cada país e o iluminismo inspirava seus (e suas) líderes.

O movimento sufragista foi o primeiro dentre as outras ondas feministas que viriam depois. Nasceu no final do século XIX a partir das ideias de uma escritora inglesa chamada Mary Wilstonecraft, uma das primeiras mulheres a erguer a voz pela defesa do voto feminino – tanto em seus livros como em seus manifestos publicados. Alguns anos depois, milhares de mulheres se reuniam para pedir o sufrágio feminino, para exigir seu direito de votar em eleições políticas.

Diversas campanhas foram organizadas pela Inglaterra, e o país chegou a ser considerado um dos focos de sua radicalização. Emmeline Pankhurst foi símbolo dessa tomada mais agressiva do movimento, pintando ideias como a greve de fome, a depredação de patrimônios e até mesmo o uso de bombas para conquistar seus direitos.

Nas primeiras décadas do século XX, mais de 1000 sufragistas acabaram atrás das grades. Mas tiveram sua primeira vitória, embora parcial, em 1918: donas de propriedade e maiores de 30 anos conquistaram o direito ao voto. A conquista definitiva viria 10 anos depois, em 1928, quando as mulheres puderam tanto votar e como se eleger.

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