Para quem mora para ‘dentro’ do Brasil, distante de fronteiras com os vizinhos da América do Sul, pode parecer estranho andar 2 quarteirões e já estar em outro país. Mas essa é a realidade da Estrela Auto Peças, um Centro Automotivo localizado na cidade de Ponta Porã, no oeste do Mato Grosso do Sul. A cidade em si tem por volta de 80 mil habitantes, mas está colada à Pedro Juan Caballero, província paraguaia de aproximadamente 115 mil habitantes.

Essa pequena conurbação existe há anos e faz com que a população das diferentes cidades (e países) convivam entre si e troquem relações de afeto e de comércio diariamente. Mas com a pandemia do coronavírus, e as diferenças abismais entre as posturas de cada governo (paraguaio e brasileiro) em relação à prevenção da população, as cidades foram separadas.

As fronteiras entre Paraguai e Brasil estão fechadas (ou ‘cerradas’) desde o dia 18 de março. A decisão veio do país vizinho, e a partir de então o próprio exército paraguaio se moveu para fazer vigilância nas divisas.

Ademir Keller é balconista da loja de autopeças Estrela, que está bem no meio desse furacão, e conta que cercas de arames farpados foram erguidas para separar os municípios. Até mesmo materiais mais simples, como caixas e cones, também estão posicionados em alguns pontos, avisando a população que dali não se deve ultrapassar.

“O fechamento mesmo foi por parte de Pedro Juan. Eles decretaram essa barreira em março: primeiro parcialmente e depois com a implantação de cercas de arames. Depois, ainda abriram valas na linha para coibir a entrada de veículos”, conta ele.  Além disso, Ademir também explicou que sempre há 1 ou 2 soldados do exército presentes para fazer essa fiscalização.

Mas por que, afinal, fechar as fronteiras? E como isso afeta comércios como a Estrela?

O fechamento das fronteiras

Vamos começar mostrando alguns dados.

O Paraguai somava, até o dia 1º de julho, 19 mortes e 2.260 casos confirmados de coronavírus. No mesmo período, o Brasil já somava 61.884 mortes e 1.496.858 casos confirmados. É claro que a população do Brasil é consideravelmente maior (209 milhões de habitantes contra quase 7 milhões no Paraguai), além de a densidade demográfica do Brasil ser mais elevada (mais pessoas a cada quilômetro quadrado), o que favorece a proliferação da doença.

Além disso, também há o fato de que as visitas internacionais ao Brasil são mais frequentes do que as visitas ao Paraguai – o que ajuda esse último país a controlar a doença.

Ainda assim, a diferença entre a quantidade de contaminações e o número de mortes entre os dois países é gigantesca. E ela também é resultado de políticas diferentes assumidas por cada um deles.

A exemplo disso, as duas cidades, Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, dividiram-se durante a quarentena: enquanto a primeira teve um isolamento mais precário, a segunda seguiu uma política muito mais firme, resultado de uma “quarentena inteligente”.

Esse último termo se refere a um isolamento feito de forma programada, com diferentes fases. A partir do dia 15 de junho, por exemplo, o Paraguai deu início à terceira fase, com retomada de algumas atividades como restaurantes, academias e parques públicos. Mas com utilização de máscaras, revezamentos e respeito à distância social adequada.

Uma matéria do G1 de nome “3 pontos-chave para entender como o Paraguai conseguiu conter a disseminação do coronavírus, apesar de estar no ‘epicentro’ da pandemia”, publicada no dia 22 de junho, explicou melhor cada um dos motivos que levaram o governo paraguaio a exibir resultados tão positivos (à medida do possível, é claro) em relação à contenção do vírus.

Sua resposta imediata à doença foi notável, como explica a matéria. Desde o início de fevereiro (sim, fevereiro), o país já vinha tomando medidas para impedir que ocorresse fluxo de pessoas entre Paraguai e China (epicentro da doença naquele momento). Essa visão a longo prazo permaneceu muito firme durante os meses seguintes. Mesmo um dia antes de a OMS declarar esse surto como ‘pandemia’, o isolamento social já havia começado. E de forma mais rigorosa.

O país teve até toque de recolher: das 23h às 5h durante dias de semana e de 0h às 5h durante fins de semana. O discurso unificado entre ministros e presidente também ajudou a dar um direcionamento para cada subdivisão (algo equivalente aos “estados” brasileiros) do país.

Pedro Juan Caballero é capital de uma dessas subdivisões, chamada Amambay. Segundo Ademir Keller, balconista da Estrela, as grandes empresas como shopping centers ainda estão totalmente fechadas nessa cidade. Os serviços essenciais estão funcionando, mas até pouco tempo atrás tudo estava bastante parado.

Por sua vez, no Brasil… “Aqui em Ponta Porã, o comércio até teve uma restrição de alguns dias com toque de recolher. Depois flexibilizaram com algumas regras e protocolos, que estamos seguindo”, explica o vendedor.

Ele também reflete que o fechamento da fronteira acabou sendo importante, porque as duas cidades sempre foram um ponto que atraía muitos turistas. Com a barreira em pé, esse fluxo praticamente zerou. “Isso eu acho que evitou o que poderia ser uma catástrofe para Ponta Porã e Pedro Juan”.

Apesar de tudo, Ademir também diz que o desemprego na cidade vizinha tem estado bastante alto. “As empresas que hoje estão fechadas em Pedro Juan, como shoppings, deverão voltar a contratar o pessoal dispensado. Porém hoje esse pessoal está sofrendo um tanto com a situação”, diz.

Ao que tudo indica, talvez não demore tanto para o comércio voltar à ativa no país (não da mesma maneira de sempre, e sim com todos os cuidados possíveis, e evitando aglomerações). Mas as fronteiras provavelmente permanecerão fechadas por mais algum tempo. O Brasil, afinal, é hoje o 2º país com maior número de casos no mundo, e se tornou um epicentro da doença.

Pular a cerca

Já vimos que as barreiras estão erguidas e que soldados estão sendo alocados para vigiar as fronteiras. E também já vimos que, por serem cidades tão próximas, há uma relação forte entre os próprios habitantes, e inclusive relações de trabalho. Ademir conta que são muitos os profissionais que moram em Ponta Porã e trabalham em Pedro Juan, e vice-versa.

Para esses trabalhadores, a resposta muitas vezes tem sido pular a cerca, literalmente. “Muitos dos profissionais têm esperado pela madrugada, o mais cedo possível, para furarem o bloqueio e poderem trabalhar durante o dia”, conta ele.

E como fica a loja?

A Estrela Auto Peças é uma loja que trabalha na linha de utilitários, em linhas de caminhões. Ademir já é balconista nesse Centro Automotivo há 10 anos. Em matéria especial feita para a revista Balconista S/A, reproduzida no portal online, o mineiro conta que teve garra para conseguir um emprego como vendedor, e que passou por várias cidades ao longo dos anos até se estabelecer em Ponta Porã.

Na mesma matéria citada, Ademir já contava que o fluxo de vendas do Paraguai para o Brasil é alto, já que os preços brasileiros costumam ser melhores. “Atendo muitos paraguaios aqui. São duas cidades, dois países, então aqui corre um pouco mais de dinheiro. Tem movimento sempre”, contava ele, ainda em 2017.

Em 2020, com a quarentena, algumas coisas mudaram. Ele diz que, em abril e maio, as vendas tiveram uma queda em torno de 15 a 20% – algo recorrente também em oficinas mecânicas, que também ficam abertas na quarentena, mas observam queda no número de clientes.

No entanto, apesar da queda no início, o balconista conta que esse percentual já foi recuperado em junho. E não só em função da flexibilização da quarentena, mas também pelo fato de que a linha com a qual a Estrela Auto Peças trabalha não foi tão prejudicada.

“Isso aconteceu, porque os caminhões não pararam”, explica Ademir. De fato, as entregas são consideradas serviço essencial, e os caminhoneiros puderam continuar seus trabalhos durante todo esse período. Mas não foi só por isso que a Estrela não teve tanto prejuízo: “Isso também aconteceu pelo fato de termos uma carteira de clientes bastante ampliada. Vendemos praticamente para todo o estado”.

Mesmo com as fronteiras fechadas, portanto, a loja não foi assim tão impactada.

“Uma curiosidade que tenho para contar é que as entregas de peças na linha divisória entre o Brasil e o Paraguai variam conforme o humor dos soldados do exército paraguaio. Uns são flexíveis outros são bravos. Então, se alguns não deixam passar, buscamos outros pontos”, comenta o balconista.

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