Em um ramo dominado majoritariamente por homens, mesmo com toda experiência de anos atrás do balcão, elas ainda escutam o “quero falar com alguém que entenda, um homem”.

Há alguns anos, a pauta sobre machismo tem crescido dentre as discussões mais frequentes na sociedade. Ao que parece, elevam-se os debates, mas o comportamento machista – vindo de homens e mulheres – está longe de mudar.

De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), a participação feminina nos cursos de automotiva e mecânica vem aumentado. Porém, o descrédito em relação a elas se mantém, pelo fato de ocuparem profissões consideradas masculinas, lidando diariamente com essa situação em nas oficinas e lojas de autopeças.

Ao contrário do que pensa o senso comum, algumas das mulheres que estão atrás do balcão já fazem parte do ramo automotivo desde pequenas. É o caso de Andressa Binhardi e Marina Carvejani da Fonseca, balconistas de duas lojas de autopeças diferentes.

Ainda que tenham personalidades diferentes, a força, garra e conhecimento do setor são elementos comuns entre as duas profissionais que dão conta do recado e não abaixam a cabeça para homens machistas.

Andressa, que há 18 anos trabalha na Atenas Autopeças, em Mauá (SP), conta que desde pequena gostava de carros e, com a influência do pai caminhoneiro, o resultado não poderia ter sido diferente. “Meu pai sempre me deixava por ali em volta enquanto mexia nas peças do caminhão. Eu cresci vendo isso”, afirma.

Balconista Andressa
Andressa cresceu em contato com o setor automotivo

No entanto, até se fixar na área como balconista – ou como ela prefere dizer, “bombril”, pois faz de tudo um pouco – Andressa relata que seu sonho era fazer vistoria automotiva em uma empresa de seguros; mas, infelizmente, a empresa parou de contratar mulheres para esse serviço na época. Assim, como ela já trabalhava na Atenas Autopeças, permaneceu por lá, firmando-se como a única balconista do estabelecimento até hoje.

Com Marina, balconista na São Jorge Autopeças, também em Mauá (SP), a paixão por mecânica e carros vem do sangue, pela influência do pai e dos irmãos. Aos 4 anos, quando seu pai montou uma loja de desmonte, Marina e sua mãe o ajudavam na busca por peças, e foi assim que ela descobriu o caminho que queria seguir.

Ao longo de sua vida, Marina trabalhou em leilões, concessionárias e, por fim, em seu último emprego, no tempo que tinha de sobra, voltava à autopeças do seu irmão para ajudá-lo no balcão. E, desde então, nunca mais saiu.

Uma das tarefas fundamentais do balconista é o atendimento ao cliente. Tanto Andressa quanto Marina consideram esta tarefa como a sua favorita, dedicando-se ao máximo para prestarem a função com excelência. No entanto, ainda que as duas trabalhem em diferentes lojas, ambas vivem realidades semelhantes quando o assunto é mulher no balcão.

Se a entrevista durasse mais tempo, não faltariam histórias para contar sobre as ofensas de cunho machista que fazem parte do dia a dia de mulheres balconistas. “Por parte dos colegas de trabalho, eu nunca sofri algo do tipo. Mas por clientes, tem várias histórias”, recorda Andressa.

Ela relata que tais ofensas também partem de outras mulheres, citando o fato de muitas delas chegarem à loja já à procura do gerente, de um homem, sem dar chance para as mulheres balconistas fazerem o seu atendimento.

Os clientes chegam na loja procurando pelo gerente. É como se, por eu ser mulher, eles não entendessem o que eu falo e ficam impacientes. Muitas vezes a gente sente aquele ar de ‘se fosse homem, ele já teria resolvido’.”

Marina, por sua vez, conta que esses situações são ainda mais frequentes do que imaginamos: “Toda semana tem alguma coisa como essa, infelizmente isso é muito comum”.

A balconista relembra sua irritação com um caso de machismo no começo de fevereiro.

“Um cliente ligou mais de três vezes na loja querendo falar com um balconista e eu sou a balconista, mas se recusou a falar comigo porque queria ele queria falar com um homem. É como se eu, por ser mulher, fosse incapaz de entender de peças de carro e mal sabe ele que eu monto e desmonto!”, desabafa Marina.

O aperto no peito e o medo em situações de opressão muitas vezes deixam as mulheres sem atitude, como em um exemplo citado por Andressa, que afirma não conseguir se impor pelo receio de agravar a situação. Ultimamente, porém, ela vem tentado se posicionar, pois acredita que esse é o único meio de erradicar, ainda que aos poucos, o machismo.

Já a audaciosa Marina dribla o medo e bate de frente com quem a desrespeita pelo fato de ser mulher. “Eu não abaixo a cabeça para homem”, sentencia a balconista.

Marina não abaixa a cabeça para machistas.

Embora acreditem que haja uma probabilidade de o machismo sempre existir, as duas balconistas lutam diariamente para provar o valor da sua voz e seu conhecimento na área automotiva. Assim, ambas acreditam que o único jeito de mudar essa situação é por meio da imposição.

Não sabemos quando o machismo na profissão de balconista – e em tantas outras – irá acabar, mas Andressa e Marina concordam que, ao iniciarmos a discussão sobre esse tema, é possível reconhecer atitudes machistas e reagir contra elas, pois, até pouco tempo, essas atitudes eram consideradas normais. Por isso, a dica delas para as outras mulheres no setor automotivo é a mesma:

As mulheres precisam se impor e mostrar que todos os lugares são lugares delas também. Não tenham medo. Nós mulheres podemos fazer tudo o que os homens fazem pois somos igualmente capazes. As mulheres não são menos por serem mulheres!”.

Esta reportagem também encontra-se disponível na Revista Balconista S/A – Edição 28. Leia o material completo!

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