COI, FIA, esportistas e fisiologista dão seus posicionamentos sobre ausência das modalidades a motor nos Jogos Olímpicos

Por Renan Nievola, Daniela Soares, Julia Maciel e Lucas Caetano

Os Jogos Olímpicos de Tóquio mobilizaram diversas pessoas ao redor do planeta. Espectadores, atletas, jornalistas, técnicos, preparadores físicos e inúmeros outros profissionais concentraram suas atenções no maior evento poliesportivo do mundo entre o final de julho e o começo de agosto deste ano.

Seguindo o ciclo olímpico de quatro anos – na última edição realizada em solo japonês, cinco, devido ao adiamento provocado pela pandemia do novo coronavírus – de um evento para o outro, os atletas competiram nas 46 modalidades que, atualmente, compõem o rol dos esportes dos Jogos.

De hóquei na grama à esgrima, do ciclismo à canoagem, as modalidades olímpicas apresentam características peculiares. Há esportes muito distintos uns dos outros. Tóquio-2020 foi palco da estreia da inusitada Escalada, além do Skate, do Surfe e do Karatê – este último o caçula entre as artes marciais das Olimpíadas, que já contavam com Judô, Taekwondo, Boxe etc.

Os Jogos realizados no país asiático também marcaram a volta do Beisebol/Softbol, cuja última aparição havia sido em Pequim-2008. Em meio a tantos desportos, há uma determinada categoria que parece não ter vez entre as modalidades que integram as Olimpíadas: o automobilismo.

Muito populares em diversas partes do mundo, os esportes a motor não fazem parte das modalidades olímpicas há mais de um século. A última vez foi nos Jogos de Paris-1900, quando o Rally foi disputado pelos competidores das delegações participantes daquela edição. Mas qual o porquê dessa ausência secular? Quais razões justificam esportes tão adorados – como Fórmula 1, Stock Car e Kart, por exemplo – não integrarem as modalidades olímpicas?

Para entender essa questão pelos vários ângulos que ela possui, o Balconista S/A conversou de forma exclusiva com as entidades internacionais que poderiam fazer com que o automobilismo figurasse em Olimpíadas, com conhecidos praticantes de esportes a motor e com um fisiologista do exercício.

A visão do COI

Quem nunca ouviu falar do saque “Jornada nas Estrelas”, em que a bola atravessava de um lado ao outro da rede depois de atingir uma altura muito grande? Seu criador foi Bernard Rajzman, brasileiro medalhista de prata em Los Angeles-1984.

Membro do Comitê Olímpico Internacional (COI) na atualidade, o ex-jogador de vôlei detalhou uma questão bastante atual que, segundo ele, pode explicar a ausência do automobilismo nas Olimpíadas:

“De uns tempos para cá, começam as preocupações com o meio ambiente. Tem uma fila de esportes para entrar no programa olímpico e, para isso, eles precisam seguir uma série de requisitos, como mais de 70 países praticantes, eventos com sucesso de público, essas coisas. E a questão do motor envolve problema de compliance – cumprimento de normais e regras.”

Bernard Rajzman. Foto: Divulgação COB

O ex-atleta enxerga com pessimismo a chance de algum esporte automobilístico passar a compor as modalidades olímpicas:

“Muitos esportes querem se tornar olímpicos, mas para eles entrarem, alguém tem que sair. O COI não atende a mais de 11.000 atletas por Olimpíada. Por isso que, a cada edição dos Jogos, nós fazemos um controle para ver como foi o comportamento das modalidades em todos os sentidos: execução e repercussão. Não vou dizer que não existe a possibilidade (de esportes a motor virarem olímpicos), mas existem questões mais importantes.”

FIA também não faz questão

Quem poderia fazer algum tipo de pressão para que um (ou mais) dos esportes automobilísticos estivessem nos Jogos é a FIA – Federação Internacional de Automobilismo. Embora seja membro do COI, a entidade, no entanto, não tem essa intenção, de acordo com Jose Abed, vice-presidente da organização:

“A Fia não pretende nada em relação a colocar a Fórmula 1 nos Jogos Olímpicos. Ela possui um longo contrato com o promotor dos eventos da modalidade.”

A relação entre o promotor da Fórmula 1 e a FIA é sólida o suficiente para que a entidade internacional faça questão de informar qual é o seu lugar nesse assunto.

“A FIA é a reguladora da competição (Dos GPs de Fórmula 1), mas quem tem o direito de falar sobre qualquer coisa ligada à promoção dos eventos é o promotor”, afirma Abed.

A opinião pessoal do vice-presidente da FIA é a de que a Fórmula Um é muito profissional para estar incluída nas modalidades olímpicas. O executivo não descarta que outras modalidades de esporte a motor, como o Kart, podem fazer parte dos Jogos em algum dia, lembrando um episódio de aproximação entre automobilismo e Olimpíadas:

“Estivemos na Argentina com uma exibição de Kart Elétrico nos Jogos Olímpicos da Juventude.”

Jose Abed. Foto: Divulgação FIA

Excesso de tecnologia e o quão atleta é o piloto

Além da questão de poluição ao meio ambiente que os esportes a motor podem trazer, outro argumento utilizado para afastar o automobilismo das Olimpíadas é o da forte influência do maquinário (motor e demais componentes dos carros e outros veículos) no desempenho final das corridas.

A piloto Bruna Tomaselli, que compete na W-Series (campeonato de Fórmula 1 exclusivo para mulheres), sustenta que a tese do excesso de tecnologia é válida:

“Teriam algumas possibilidades (de reduzir a diferença trazida pela tecnologia), como fazer com que os carros fossem todos iguais. Mas mesmo quando tentam fazer isso, muitas vezes, tem alguma diferença. Os motores acabam nem sempre sendo iguais. Os equipamentos acabam, nem sempre, sendo todos iguaizinhos, então alguma diferença vai ter.”

Bruna Tomaselli. Foto: Divulgação

Se os esportes a motor não dependem exclusivamente da força do atleta, pode-se dizer que eles não são os únicos a sofrer influência de fatores externos. Para o fisiologista do exercício e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Antonio Claudio da Nóbrega, um dos argumentos que podem ser usados para defender o automobilismo como esporte olímpico é o que o compara com o hipismo (presente nos Jogos), modalidade na qual o competidor depende do cavalo para obter o resultado nas provas.

“No hipismo, o que se avalia é o conjunto, e não só o cavaleiro. Portanto, o argumento é de que se trata de um ser vivo, ao contrário do carro. Assim, tem-se um conjunto de dois seres vivos. Na verdade, o desempenho físico é o resultado da interação entre os genótipos (características genéticas do indivíduo) e os fenótipos (como ele se expressa). E isso ocorre também em relação ao cavalo, que, então, é avaliado fisiologicamente”, enfatiza o profissional da saúde.

Antonio Claudio da Nóbrega

Há quem diga que os pilotos de esportes a motor têm menos esforço, ou são “menos atletas” do que os competidores de esportes olímpicos, justamente pela grande influência da tecnologia que existe nos veículos. Mas essa ideia, para Nóbrega, não faz nenhum sentido.

“Não há absolutamente nenhuma diferença na demanda fisiológica entre atletas e pilotos. Ela é física e psicologicamente desgastante. O piloto depende de valências físicas, como endurance, para suportar o tempo da corrida, além do desempenho muscular localizado para movimentação do volante, da postura da cabeça com o peso do capacete, bem como a concentração e o estresse térmico. Então, do ponto de vista fisiológico, é absolutamente igual”, finaliza ele.

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