Luiz Augusto preserva o legado familiar e aproveita as vantagens de uma cidade pequena para estreitar relações no balcão

Quem conhece o rio Tietê apenas pelo seu trecho em São Paulo (SP) não deve imaginar que aquelas águas deterioradas se tornam limpas conforme nos aproximamos de sua nascente, em Salesópolis.

Ao longo do caminho, o Tietê cruza o município de Biritiba Mirim, no qual, a cerca de 3km dali, está a Autopeças Luizinho, comandada pelo balconista Luiz Augusto de Oliveira, de 39 anos.

Com formação em gestão empresarial, Guto – como é chamado pelas pessoas próximas – dá continuidade à loja criada pelo pai, Luiz de Oliveira, falecido há 7 anos: a primeira autopeças de Biritiba.

“Meu pai veio de Ibirarema (do lado de Ourinhos) para trabalhar como torneiro mecânico na construção da barragem Ponte Nova, logo ali à frente. Quando terminou o serviço, foi dispensado e montou uma oficina pequena, e, depois, em 1985, abriu a autopeças”, conta.

Luiz Augusto também mantém o serviço de guincho pelo estabelecimento, feito com uma clássica Rural Wyllys 6 cilindros, de 1962, antes pertencente ao pai, e que hoje atende a emergências em Biritiba, Salesópolis, Mogi das Cruzes e Suzano.

Vantagens de uma cidade pequena

Parte do Cinturão Verde – grande polo agricultor da região metropolitana de São Paulo, responsável por 25% da produção nacional de verduras – Biritiba cresceu nos últimos anos, de modo que a Autopeças Luizinho ficou pequena demais, tendo de se mudar para um lugar maior, onde permanece.

No entanto, se comparada a Mogi e Suzano, Biritiba preserva traços peculiares de cidades pequenas, sobretudo em relação à proximidade no contato entre moradores. De cada 10 telefonemas recebidos por Guto, só um não é de alguém conhecido.

“A diferença é que, por ter menos gente, nós lembramos das pessoas, chamamos pelo nome. Aqui você não tem para onde correr, nem se quisesse. Então, precisamos ser honestos”, destaca.

Essa cultura beneficia até mesmo os habitantes das cidades vizinhas – maiores – onde as lojas dificilmente autorizam a troca de peças.

“Às vezes, a pessoa não consegue trocar uma peça em Mogi; então, ela vem para cá, a gente substitui e recebe a diferença se necessário. Sempre vai ter alguém precisando de peça.”

Tempo para confiança

Para o entrevistado, o balcão não é só a venda, mas também a criação de um vínculo com o cliente, no qual deve prevalecer a confiança mútua. Em outras palavras, consolidar uma parceria que, de tão fechada, possibilita aberturas sinceras e construtivas.

Se o cliente escolhe uma peça que o balconista não considera a mais apropriada, Guto se sente à vontade para intervir.

Por exemplo, quando o cliente quer colocar uma calota nova, eu oriento: ‘então, meu amigo, por que a gente não começa pelo freio, que é a parte de segurança mais importante?’. Ou quando a pessoa quer decorar o carro com um novo jogo de tapetes, mas diz que o veículo está fazendo um barulho estranho. Então, falo para ele trocar primeiro o terminal de direção, porque a segurança está em risco.”

Legado

Essa postura perante a clientela também se explica enquanto preservação da honra de quem começou tudo.

“Todo cliente que chega aqui fala: ‘poxa, sempre ouvi falar bem do seu pai’; ‘seu pai me ajudou muito quando meu carro quebrou etc.’. Então, o nome dele está marcado. A cidade inteira reconhece, e eu, por ser filho, tento manter isso. Sou muito favorecido pelo legado que ele me deixou”, diz.

Guto tem um filho, Luiz de Oliveira Neto, de 17 anos, e que, segundo o relato, desde cedo demonstra potencial para dar sequência à tradição familiar. Mas o pai ressalta que cabe ao jovem – hoje terminando o Ensino Médio – decidir seu futuro.

“Ele puxou muito meu pai, tem o tino igual; fica batendo papo no balcão sobre coisas técnicas. Às vezes eu até chamo a atenção dele, porque estende muito o atendimento e pode deixar um pessoal esperando na fila. Até se profissionalizar em outra área, ele vem, me ajuda, até porque daqui é que vem o sustento. Mas não obrigo a nada. Ele quer estudar Biomedicina.”

Retrato do pai, Luiz de Oliveira

Relação com mecânicos

Embora a pandemia tenha impedido a realização de vários eventos nos últimos dois anos, Luiz Augusto criou o hábito de organizar palestras, junto a fabricantes do setor, para que mecânicos e balconistas possam trocar informações, com direito a churrasco e confraternização. Para ele, é essencial que balcão e oficina estejam unidos.

O mecânico é um formador de opinião. Se um cliente vem aqui sem antes passar na oficina, eu indico um para ir. Sem mecânico, não adianta eu ter uma loja. Vou vender para quem? A gente está junto no mesmo barco, inclusive o cliente.”

A chave para ser um bom balconista

Quando se pergunta sobre o segredo para ser um profissional de qualidade, conhecimento costuma ser a resposta, aquela mais genérica. Mas Luiz Augusto foi por outro caminho e não titubeou:

“É se colocar no lugar do cliente. Procuro orientá-lo como se fosse um irmão, um primo, um tio. Meu trabalho como balconista é assim: ajudar e resolver. Não penso só na venda, até porque a venda vai sair”, finaliza.

Esta reportagem também encontra-se disponível na Revista Balconista S/A – Edição 31. Leia o material completo!

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