Vivendo do petróleo: um balconista na Venezuela

A Venezuela é o quarto país mais populoso da América Latina. São mais de 31 milhões de habitantes, sendo 2 milhões apenas na capital, Caracas. A cidade, como todo o país, vive atualmente um processo de colapso político, onde o governo de Nicolás Maduro acusa a oposição e os EUA de sabotagem ao seu governo. Já os opositores, por sua vez, acusam Maduro de perseguição política e todo o seu viés autoritário, baseado no aparato militar do país. Entretanto, nem sempre foi assim.

O ouro negro e o setor automotivo

O país a todo momento conviveu com diferentes ideologias e governos. Mesmo assim, sua economia sempre foi largamente dependente do petróleo. Cerca de 90% das exportações do país são dessa matéria prima. Por isso, aproximadamente 50% da receita do governo é proveniente do “ouro negro”.

Em tempos de alta do petróleo, o país costuma se desenvolver mais, impulsionando outros setores, como o automotivo. Foi assim, então, que nasceu a Estación de Servicio Mariperez.

Leonel Baltazar, balconista da loja, tem 27 anos. Ele é designer gráfico e um dos 14 funcionários do local, que também funciona como posto de gasolina. São mais de 300 clientes por dia, o que torna-se ainda mais caótico num país que vive escassez de produtos, principalmente dos que vêm do exterior. Mesmo assim, o negócio sobrevive.

“Existem muitas lojas de autopeças por aqui, e todas de grande qualidade, mas o que faz com que nosso negócio se destaque é o estoque farto e a variedade de marcas em todas as linhas”, conta o funcionário.

De acordo com ele, algumas das peças são importadas do próprio Brasil. Entretanto, a escolha dos clientes é por produtos asiáticos, principalmente da China e Coreia do Sul, por serem mais baratos (e de qualidade inferior).

E as peças que os clientes mais procuram são as relativas à parte elétrica, como o automático do motor de arranque, alternadores etc.

Crise do carro zero

Se a Estación de Servicio Mariperez ainda consegue sobreviver, o mesmo não se pode dizer da indústria automotiva venezuelana. Em 10 anos, o setor encolheu aproximadamente 98%. Em 2007, foram vendidos 170 mil veículos na Venezuela. No final de 2016, esse número chegou a meros 2800 automóveis. Uma crise sem precedentes.

E isso se reflete, sem dúvidas, na produção de carros nacionais. O veículo mais presente nas ruas da Venezuela, de acordo com ele, é o Chevrolet Aveo, que chegou ao Brasil com o nome de Chevrolet Sonic. A crise é tão grande que a GM não produziu nenhum veículo no país em 2016.


Os protestos de rua são frequentes, e chegam até mesmo a afetar o fluxo de clientes da loja. É o que conta Leonel.

“Os protestos nunca chegaram a paralisar a loja, porque ela está sempre protegida por funcionários do governo. Porém, as ruas próximas a nós sempre ficam interditadas pelos manifestantes e isso diminui o movimento do nosso comércio˜.

E o futuro?

Os problemas ainda parecem longe do fim. A inflação continua galopante, planos e mais planos econômicos são lançados pelo governo, diversas pessoas deixam o país em direção aos vizinhos, inclusive o Brasil. Os que permanecem na Venezuela buscam lutar pelos dias de ouro de volta. Ou simplesmente sobreviver. Leonel é um deles.

“Não temos uma previsão para o fim da crise. Estamos vivendo um dia após o outro”, finaliza Baltazar.

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