As mulheres estão cada vez mais presentes no setor automotivo. E claro, na venda de autopeças. Essa presença, aliás, vem seguindo uma tendência de diversos setores varejistas. De acordo com a Fecomercio SP (Federação do Comércio do Estado de São Paulo), 48% das vendedoras já possuem carteira assinada, número que aumenta a cada ano.

Pensando nisso, o Balconista S/A visitou a Konsumo Desmanche, loja que atua no segmento de autopeças para reposição. Toda a sua equipe de 5 pessoas é formada por mulheres. Daniela (37 anos) e Gabriela (19) são mãe e filha e donas do local, que ainda conta com as balconistas Yasmim (21 anos), Tainá (22) e Pamela (18). Confira a entrevista com as vendedoras, que falaram como o machismo do setor ainda persiste:

Qual foi o incentivo para abrirem a loja e contratarem somente vendedoras?

Daniela: Eu trabalhava com o meu esposo, e ele trabalha com o segmento automotivo (manutenção de carros). Como sempre tive vontade de ter o meu próprio negócio, decidi abrir essa loja de autopeças. A razão de contratarmos só mulheres veio do fato de eu ter mais habilidade em lidar com elas.

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Como é a recepção dos clientes no local?

Daniela: A única novidade que uma pessoa vê quando entra é que não tem nenhum homem no balcão pra atender e falar sobre as peças. Toda vez que ele quiser alguma informação, uma mecânica o atenderá, uma balconista (…) Mas eles saem satisfeitos tanto quanto em outra loja.

Yasmin: Todo dia temos uma surpresa diferente. O engraçado é o fato deles (homens) não aceitarem que a gente entende tanto quanto eles ou até mais. Então fica engraçada a situação, com eles tentando manobrar o seu conhecimento e no final das contas verem que você realmente entende, e ficar tipo “nossa, caramba, as meninas manjam de verdade”.

Tainá: Eles não aceitam saber menos. É machismo, né? Como a Gabi falou, eles chegam e a gente está aqui. Então, vão procurar em outro canto para ver se tem homem até a gente perguntar: “Amigo, podemos te ajudar?”.

Qual é a sensação de liderar uma equipe de autopeças, que é um setor supermachista, só de mulheres? Vocês já tiveram bastante visibilidade na mídia, apareceram até na televisão…

Daniela: É maravilhoso. Nós viramos uma família, então hoje posso te falar que aqui não existe briga (…) todo mundo se dá bem, não existe confusão. Sabe, tem sempre um churrasquinho de vez em quando, as meninas se dão bem, saem juntas para comer e para beber. Tem uma superamizade (…)

Como vocês fizeram para encontrar as meninas que vieram trabalhar aqui?

Gabriela: A gente não escolhe pessoa que tenha necessariamente experiência. A gente prefere uma pessoa que queira trabalhar e se interesse pelo ramo.

Daniela: Até preferimos que a pessoa não tenha experiência, porque aí ela vem sem hábitos. Você acaba a doutrinando para aquela forma que você quer para a sua empresa.

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Vocês já tinham familiaridade com a área de autopeças? Já tinham trabalhado como vendedoras? Se não, como foi o comecinho e o aprendizado aqui?

Yasmin: Eu já vinha de uns 4/5 anos no setor. Eu gosto muito, me dou superbem. Como já tenho muito tempo na área, para mim fica um pouco mais fácil.

Tainá: Eu comecei há uns dois anos, junto com ela (Yasmin) inclusive. No começo, nunca pensei que seguiria uma área assim (…) fiz faculdade de fisioterapia e não me adaptei. Saí, tranquei a faculdade e estou aqui até hoje. Eu gosto muito do que faço.

Pamela: Para mim sempre é um desafio. Eu entrei aqui ‘meio que sabendo de nada’. Na verdade, nada mesmo. E elas que tiveram toda a paciência de me ensinar.

Qual a maior dificuldade de vocês trabalhando aqui?

Pamela: Essa questão da insegurança mesmo, por ser mulher. Mas, ao mesmo tempo, tem aquele sentimento de vitória, porque é histórico, sabe? Essa dificuldade da mulher “aparecer” na sociedade (…) Por mais desconfortáveis que algumas situações se apresentem para a gente, sentimos um gosto de vitória mesmo. Por ser mulher, por ter conseguido ultrapassar diversas barreiras e estar onde estamos hoje. Por exemplo, receber vocês aqui. Para a gente é muito gratificante ter alguém que reconhece esse trabalho. É muito legal mesmo.

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