Da repulsa pela cor à recuperação do original

Não parece, mas houve um tempo em que Raphael Antunes, morador de Presidente Prudente, interior paulista, além de não simpatizar com o modelo que dirige atualmente, só queria distância de carros brancos.

Se o seu Opala Comodoro SL/5 2.5 fosse capaz de saber disso antes de ir para as mãos do novo proprietário, talvez acelerasse sozinho, cantando pneu, só para fugir de uma eventual roubada. “Vai que esse cara me pinta de outra cor”, deve ter pensado com seu motor.

Na infância, tanto Raphael, como as crianças de seu círculo, rechaçavam a cor branca.

Todo mundo achava que era táxi. A gente queria ver qualquer cor, menos branco.”

Sua paixão pelos carros vem desde que ele se conhece por gente. Passava a infância petrificado, olhando para os veículos que circulavam pelas ruas de Álvaro Marcondes, sua cidade natal, inclusive tornando recorrentes algumas cenas desagradáveis.

“Eu sempre chorava, porque vivia batendo a cara no poste e caindo no chão”, recorda.

Mas era o Maverick que realmente fazia o coração de Raphael disparar, embora o Opala já fosse parte da história familiar. No passado, seu pai tinha um modelo 73, vermelho; e outro, 75, com 4 cilindros e câmbio na coluna. Tempo depois, quando possuía um Monza 88, quis novamente comprar um Opala, ao que o filho reagiu: “por que não um Maverick?”.

O sentimento começou a se alterar à medida que Raphael crescia e iniciava sua vida social na adolescência. Na parte do lazer, a cultural local girava em torno de quermesses e festinhas de bairro distribuídas por Presidente Prudente e nas municípios vizinhos, como Alfredo Marcondes e Álvares Machado.

Os amigos se juntavam – um deles, em regra, com habilitação para dirigir –, rachavam o combustível e partiam rumo a esses eventos.

Como era o Opala branco antes de passar para as mãos de Raphael: insufilm, adesivo preto nas colunas das portas, seta dianteira cristal e rodas de Ômega GLS.

“Foi nessas viagens que avistei de relance o Opala branco em frente a uma oficina em Álvares Machado, e me chamou atenção a conservação do carro, embora não tivesse me interessado, justamente por ser branco. Mas comentei com meu pai, que na época estava tentando trocar o Monza por um Opala, daí ele disse: ‘então vamos lá ver.’”

Por coincidência, o carro era do dono da oficina, e estava lá guardado cuidadosamente sob uma capa. Além da conservação, o cheiro suave no lado interno, contrapondo-se ao odor de poeira e mofo que caracterizam veículos antigos mal cuidados, era mais um ponto a favor do novo pretendente. Em meio às tratativas, conversa vai, conversa vem, e…negócio fechado.

E minha alegria de moleque era acordar de manhã no final de semana e lavar o carro. Então, com o tempo fui gostando dele. Isso quebrou aquele paradigma que eu tinha, de todo carro branco ser táxi etc.”, conta.


Kit com manual, certificado de garantia, folder com rede de concessionários, estojo da concessionária Âncora – de onde o Opala foi tirado 0 km – além de todos os documentos desde quando Raphael o comprou do pai em 2005.

A posse

Após um tempo, o pai decidiu vender o Opala, para surpresa de Raphael. No entanto, aos 19 anos, já trabalhando e cursando Ciências Contábeis na universidade, ele se opôs. Vender? Que fosse para ele, então. E Raphael fechou o negócio em família, arcando com o consórcio do veículo pelos cinco anos seguintes.

De lá até aqui, pouquíssimas mudanças foram feitas, basicamente para fins de manutenção. A pintura apresenta alguns sinais de desgaste, “mas é a história do carro”, pondera Raphael.

Outra diferença em relação ao modelo de fábrica está na traseira, que, apesar de contar com as lanternas tricolores (vermelha, laranja e branca), traz um verniz vitral fumê por cima, provavelmente aplicado por um dos antigos proprietários. Segundo Raphael, “ficou bonito, e acabei deixando.”

Mecânico

O motor de Raphael é o de 4 cilindros 2.5, o menos comum em Opalas, nos quais predominam o 6 cilindros 4.1. Tanto que, quando os mais conhecedores perguntam algo sobre o modelo a ele, a primeira frase costuma ser: ‘É 6?’.

“No meu caso, é o motor mais fraco, 88 cv a álcool, mas é o original”, destaca.

Em dado momento, Raphael entrou para um curso técnico de mecânica, o que permitiu a ele próprio fazer o motor do seu Opala, bem como realizar quaisquer reparos na hora em que algum problema aparecesse.

“Na última vez em que o carro quebrou, fiz a retífica do motor – desmontei, retifiquei o bloco, revisei todas as outras peças e troquei por novas. Também coloquei engrenagem nova (um casal de alumínio do virabrequim e do comando), para durar muito mais do que a antiga. Então se tiver que fazer manutenção de novo, é só quando meu filho estiver grande. Aí vai cair na mão dele.”

O dia da montagem do novo motor, com todos os parafusos galvanizados de amarelo, conforme saíram de fábrica.

Mais original do que a encomenda

À medida que realiza tais incrementos, pode-se dizer que Raphael deixa seu filho de quatro rodas mais original do que quando o adquiriu. Além de certas trocas pontuais que o aproximavam do protótipo inicial, o carro ganhou ornamentos valiosos.

Uma dessas substituições ocorreu justamente nas rodas, cujo tipo anterior era de um Ômega GLS; agora, são as originais do Opala Comodoro, conhecidas como “ralinho”, devido ao formato similar aos ralos de banheiro. Outra foi a compra do rádio, ainda que, para isso, tivesse sido necessário realizá-la escondido da esposa. “Ela nem sonha o quanto eu paguei”, confessa.

Além disso, teve o ar-condicionado, necessário para uma cidade tão quente. Sempre com as peças originais.

E é isso que fui garimpando nesses 16 anos com o carro. Veio peça de Santa Catarina, São Paulo, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul… Até que três anos atrás consegui instalar. Então, há uns 3 anos, consegui terminar.”

Dá para perceber o trabalho para manter um veículo o mais próximo possível da sua originalidade. Até por isso, não convém sair com ele por aí a torto e a direito. Raphael conta que o Opala já foi de uso diário, mas, hoje, tira-o da garagem só de duas a quatro vezes por semana.

“O propósito dele é divertir, dar uma volta, passear. Existe um risco. Por exemplo, se bater e tiver que ir atrás de uma peça original, fica complicado.”

Quase não emplacou

Um dos requisitos básicos para se obter a placa preta é o carro possuir ao menos 30 anos de fabricação. No entanto, em 2019, com o Opala prestes a atingir a idade, veio a notícia de que as novas placas Mercosul eliminariam a modalidade preta para coleção.

“Em 2019, surgiu esse boato. Eu estava quase desencanando, mas um amigo me avisou que provavelmente daria para colocar a preta em janeiro de 2020. Tanto é que se fosse em fevereiro, não daria mais. Fiz a vistoria e me deram o certificado”, relembra.

Basicamente, se o ano começasse em fevereiro, a placa preta não passaria de um sonho.

Linhagem

O filho Pedro, de 5 anos, adora o carro, e diz que vai ser dele no futuro. E é óbvio que o pai abraça essa ideia orgulhosamente, mas pondera.

O problema é que ele diz que vai pintar de vermelho. É a cor favorita dele. Se for assim, não vai ter jeito.”

Esta reportagem também encontra-se disponível na Revista Balconista S/A – Edição 30. Leia o material completo!

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